‘Cosmoclimatologia’ – argumentos velhos e ultrapassados em nova roupagem

A principal objeção para a idéia de que raios cósmicos têm influência na cobertura de nuvens veio de meteorologistas os quais insistiram que não haveria mecanismo capaz de produzir isso. Por outro lado, alguns físicos atmosféricos concluiram que a observação e a teoria falharam em considerar satisfatoriamente a origem das partículas de aerossóis sem as quais a água não condensa para formar nuvens.

Eu não acho que isso seja uma piada, e não sei se o artigo tenta criar uma classificação de críticos e adeptos de suas idéias como ‘meteorologistas’ e ‘físicos’ (eu sou físico). Mas este é um detalhe diminuto comparado com os conceitos errados incluídos nessa passagem. Existem muitas ‘sementes’ no ar que podem condensar água, também conhecidas como núcleos de condensação de nuvens (sigla em inglês CCN). De acordo com meu velho livro ‘A Short Course in Cloud Physics’ de Rogers

e Yau (1989, p. 95, terceira edição): “Núcleos de condensação de algum tipo estão sempre presentes na atmosfera em grande número: nuvens se formam sempre que há movimentos verticais de ar e suficiente umidade”. Os CCN consistem na maioria das vezes de poeira mineral, sal marinho ou material sulfuroso.

Eu tenho sérias dúvidas sobre a seguinte – vaga ainda que falsa – afirmação colocada adiante no artigo da A&G :

Tentativas de mostrar que certos detalhes nos dados climáticos confirmam a forçante de efeito estufa (por exemplo Mitchell et al., 2001) têm sido menos conclusivas. Em contraste, a hipótese de mudanças nas nuvens devido aos raios cósmicos que ajuda a forçar uma mudança climática prevê um sinal distinto que é na verdade muito facilmente observado mais como uma exceção do que uma regra.

De novo, sem mais qualificações ou referências. A ironia é que Svensmark ignora (além da falta de tendência dos GCR) o fato de que as temperaturas noturnas têm subido mais rápido do que as temperaturas diurnas, ponto pelo qual eu o incomodei numa Reunião Nordica de Meteorologia em Copenhagen em 2002. Um jornalista do Jyllands Posten presente na conferência captou a mensagem, de modo que minha crítica repercurtiu num jornal no dia seguinte (“Klimaforskere i åben krig” [tradução 'Pesquisadores do clima em pé de querra], 28 de maio, 2002): É difícil explicar como um aquecimento causado pela diminuição do albedo poderia ser mais forte no lado escuro (noite) do planeta.

Um outro quebra-cabeça está na surpreendentemente boa correlação entre nuvens e GCR (veja figura abaixo), tendo em vista que nuvens altas (cobertura média global de ~13%) ou nuvens

intermediárias (~20%) que não são influenciadas por GCR, mascaram as nuvens baixas

(que representam entre 28% e 30% do globo). É de fato supreendente o bom ajuste entre as duas curvas no trabalho da A&G (reproduzido abaixo), considerando a estrutura de tempo nas curvas de altas, intermediárias e baixas nuvens, e que os satélites não podem ver as nuvens de baixo nível onde acima existem nuvens de níveis mais altos bloqueando a visão. O fato é que as variações são pequenas (~1% em amplitude!) comparadas com a área total, sugerindo que o efeito de sobreposição/mascaramento por nuvens altas deve ser muito pequeno para uma alta correlação acontecer através de nuvens elevadas. Mesmo se hipoteticamente as

nuvens fossem completamente determinadas por GCR, poderíamos esperar ver uma deterioração da correlação se vista por cima, devido à presença de nuvens altas não influenciadas por GCR. Outra questão é que os dados de nuvens usados nessa análise foram somente baseados no canal infra-vermelho (sigla em inglês IR),

e uma melhor análise deveria incluir as observações no visível também, mas se os dados do visível são incluídos, então a correlação seria menor (comunicação pessoal, Jørn Kristjansen).

Page 2 of 5 | Previous page | Next page